Etanol ganha espaço em máquinas pesadas e impulsiona descarbonização no agronegócio
Tecnologias desenvolvidas por Bosch, John Deere e Grunner prometem reduzir custos operacionais, diminuir a dependência do diesel importado e acelerar a transição energética no campo
26 de outubro de 2026

O uso de etanol como alternativa ao diesel fóssil em máquinas agrícolas e equipamentos pesados vem ganhando força no agronegócio brasileiro. Durante o painel "Uso de Etanol em Motores Diesel", realizado no setor sucroenergético, representantes da Bosch, John Deere e Grunner apresentaram soluções tecnológicas voltadas à redução das emissões de carbono e dos custos operacionais das atividades agrícolas.
A adoção de combustíveis renováveis tem sido apontada como uma das principais estratégias para descarbonizar operações de grande porte, especialmente em segmentos com elevado consumo de diesel, como colheita de cana, transporte agrícola e mineração.
Retrofit amplia vida útil das máquinas
A Bosch aposta na adaptação de equipamentos já existentes como forma de acelerar a transição energética. Segundo Paulo Rocca Vieira, vice-presidente da área de Desenvolvimento de Novos Negócios da empresa, a tecnologia denominada "dual fuel" permite que motores originalmente movidos a diesel passem a operar também com etanol por meio de sistemas de retrofit.
A solução consiste na instalação de um sistema complementar de injeção de etanol e de um controlador eletrônico independente, sem a necessidade de alterações estruturais significativas no motor. O processo pode ser concluído em menos de um dia.
De acordo com Vieira, a estratégia é especialmente relevante para máquinas de longa vida útil, como colhedoras de cana e equipamentos de mineração, que permanecem em operação por décadas. O executivo destacou ainda que a ampliação do uso de etanol pode contribuir para reduzir a dependência brasileira do diesel importado, aproveitando a ampla capacidade nacional de produção do biocombustível.
John Deere busca ganhos econômicos e eficiência
A John Deere também investe no desenvolvimento de motores movidos exclusivamente a etanol. A fabricante realiza testes no Brasil com um propulsor de nove litros voltado principalmente a produtores verticalizados e operações ligadas à cadeia sucroenergética.
Segundo Felipe Dias, gerente global de Sistema de Produção de Cana-de-Açúcar da companhia, a viabilidade econômica é um fator decisivo para a adoção da tecnologia. A expectativa da empresa é alcançar uma redução entre 10% e 15% nos custos com combustível, sem comprometer aspectos considerados fundamentais pelos produtores, como desempenho, confiabilidade e suporte técnico.
Nova geração de equipamentos reduz frota e emissões
Os resultados da utilização de combustíveis renováveis já começam a aparecer na logística agrícola. A Grunner, fabricante de equipamentos para movimentação e transbordo de cana-de-açúcar, lançou recentemente máquinas equipadas com motores a etanol e biometano.
De acordo com André Luiz Torquetti, gerente nacional de Vendas e Marketing da empresa, a nova tecnologia foi desenvolvida com foco não apenas na sustentabilidade, mas também na geração de ganhos financeiros para os produtores.
Projeções apresentadas pela companhia indicam que, para uma safra estimada em 673,2 milhões de toneladas de cana, a utilização dos novos equipamentos pode reduzir a necessidade de máquinas de transporte de 10 mil para 8,5 mil unidades.
Além da otimização da frota, os cálculos apontam uma expressiva redução nos gastos com combustível. O custo estimado para uma safra cairia de R$ 1,95 bilhão para R$ 898 milhões. Em termos ambientais, a mudança evitaria a emissão de mais de 920 mil toneladas de dióxido de carbono (CO₂).
Transição energética avança no campo
Combinando inovação tecnológica, maior aproveitamento de biocombustíveis nacionais e potencial de redução de custos, o etanol desponta como uma alternativa viável para a descarbonização de operações pesadas no agronegócio. O avanço de projetos de retrofit e de motores desenvolvidos especificamente para o combustível reforça a tendência de uma matriz energética mais limpa e competitiva para o setor nos próximos anos.
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