Chuvas e El Niño colocam o manejo dos vinhedos em alerta para a próxima safra
Chuvas no período de pré-floração auxiliam desenvolvimento das parreiras, mas granizo pode ser obstáculo em anos extremos
15 de outubro de 2026

As condições climáticas devem ter papel decisivo na próxima safra de uvas na Serra Gaúcha. Com a influência do fenômeno El Niño e a previsão de chuvas acima da média em diferentes períodos do ciclo produtivo, produtores da região intensificam o monitoramento dos vinhedos para minimizar riscos e preservar a qualidade das uvas.
Em Monte Belo do Sul, a equipe técnica da vinícola Casa Marques Pereira acompanha atentamente o desenvolvimento das videiras e as projeções meteorológicas. Segundo o vinhateiro e sócio-proprietário da empresa, Felipe Marques Pereira, o momento exige atenção especial devido à possibilidade de chuvas intensas e episódios de granizo, fenômenos associados ao El Niño.
Atualmente, os vinhedos estão na fase de pré-floração, etapa em que a disponibilidade de água tende a favorecer o desenvolvimento das plantas. A chuva contribui para a nutrição das videiras e ajuda a prepará-las para o período de maior demanda energética, quando ocorre a floração e o início da formação dos frutos.
No entanto, o excesso de precipitação durante as fases seguintes pode trazer desafios para a produção. Durante a floração, por exemplo, a falta de luminosidade causada por períodos prolongados de chuva pode comprometer a abertura das flores e dificultar o processo de polinização.
Após essa etapa, na formação das bagas, a umidade excessiva eleva o risco de doenças fúngicas, exigindo maior rigor no manejo fitossanitário. O mesmo cenário se repete durante o amadurecimento das uvas, quando as condições climáticas passam a influenciar diretamente a sanidade dos frutos e o planejamento da colheita.
Granizo preocupa produtores
Além do volume de chuva, os eventos climáticos extremos são considerados uma das principais ameaças à próxima safra. O granizo, em especial, pode provocar danos estruturais nas plantas e comprometer a produtividade por mais de um ciclo.
Segundo Felipe Marques Pereira, os prejuízos podem ser significativos, com quebra de ramos, perfuração das bagas e redução da fertilidade das videiras.
“Às vezes tem plantas que precisam de duas, três safras para ser recuperadas de uma chuva de granizo”, afirma o produtor.
A ocorrência frequente de precipitações também dificulta o controle de doenças e torna o calendário agrícola menos previsível. Em muitas situações, o produtor precisa adaptar rapidamente as estratégias de manejo conforme as condições observadas no campo.
Menos chuva favorece controle da colheita
Se o excesso de umidade preocupa em parte do ciclo produtivo, períodos mais secos durante a maturação costumam ser vistos como positivos pelos viticultores. Com menor incidência de chuva, as uvas tendem a concentrar açúcares de forma mais eficiente, favorecendo a qualidade da matéria-prima utilizada na elaboração dos vinhos.

Além disso, condições mais estáveis permitem maior controle sobre o momento da colheita. Quando há precipitações próximas da data prevista para a retirada dos frutos, pode ser necessário refazer tratamentos fitossanitários e respeitar novos períodos de carência antes da colheita.
“Se você tem menos chuva, consegue ter mais controle sobre o ponto que vai colher a uva”, explica Felipe Marques Pereira.
Impacto vai além da produtividade
Para os produtores, os efeitos do clima não se limitam ao volume colhido. A distribuição das chuvas ao longo do ciclo produtivo influencia a sanidade das videiras, o cronograma de trabalho nos vinhedos e as decisões de manejo adotadas para garantir a qualidade das uvas.
Diante da instabilidade climática prevista para a próxima temporada, o acompanhamento constante das condições meteorológicas deverá ser uma das principais ferramentas dos viticultores para reduzir riscos e manter o padrão de qualidade da safra gaúcha.
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