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Meio Ambiente

Cães de vida livre alteram comportamento de onças-pardas e acendem alerta para conservação

Pesquisa da Unesp mostra que a presença de cães em áreas protegidas afasta o maior predador terrestre do estado de São Paulo por vários dias, revelando um impacto silencioso sobre a fauna nativa

24 de julho de 2026

Cães de vida livre alteram comportamento de onças-pardas e acendem alerta para conservação

A relação entre cães e seres humanos é uma das mais antigas da história — e também uma das mais numerosas. Estima-se que mais de 1 bilhão de cães vivam hoje ao lado das pessoas, ocupando praticamente todos os ambientes habitados pelo homem. Mas, longe das cidades, um grupo pouco lembrado tem chamado a atenção de pesquisadores: os cães rurais de vida livre.

Eles têm tutor, alimento e um local para retornar ao fim do dia, mas circulam livremente por fazendas, estradas, plantações e áreas de vegetação nativa. Nesse trajeto, muitos acabam entrando em Unidades de Conservação e interagindo com a fauna silvestre — um encontro que pode trazer consequências importantes para espécies ameaçadas.

Foi justamente essa interação que motivou um estudo da Unesp, publicado na revista Biological Conservation. A pesquisa analisou como a presença desses cães influencia o comportamento da onça-parda, o maior predador terrestre ainda presente em boa parte do interior paulista. O resultado surpreendeu os cientistas: em vez de intimidar os cães, é a onça que muda seu comportamento para evitar locais onde eles passaram.

Onça evita áreas por até seis dias após a passagem de cães

Com 67 armadilhas fotográficas instaladas na Estação Ecológica de Santa Bárbara e na Floresta Estadual de Águas de Santa Bárbara, os pesquisadores registraram um padrão claro. Depois que um cão circula por determinado ponto, a onça-parda leva, em média, 74 horas para voltar ao local. O uso regular da área só é retomado cinco ou seis dias depois.

O comportamento indica uma estratégia consistente de evitar o contato, mesmo sem confronto direto. Para uma espécie de topo de cadeia, que depende de grandes áreas para caçar e se deslocar, essa mudança pode representar perda de território, alteração de rotas e impacto na disponibilidade de presas.

A bióloga Rita Bianchi, professora da Unesp em Jaboticabal, explica que o aumento de registros de cães dentro de áreas protegidas acendeu o alerta do grupo de pesquisa. “A cada nova amostragem, víamos mais cães circulando nas unidades de conservação. Queríamos entender por que eles estavam ocupando essas áreas e quais consequências isso poderia trazer para a fauna nativa”, afirma.

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Predador adaptável, mas pressionado

A onça-parda foi escolhida como foco do estudo por ser uma espécie adaptável a diferentes ambientes e por ter dieta variada. Ainda assim, os registros mostram que ela reorganiza seu uso do espaço para evitar encontros com cães — uma mudança que pode afetar sua eficiência de caça e sua permanência em áreas protegidas.

Rodolpho Gonçalves da Silva, primeiro autor do estudo, admite que o resultado contrariou expectativas. “Eu imaginava que a onça parda imporia respeito e controlaria a área. Os cães poderiam ser uma ameaça para animais menores, mas não para um predador desse porte. Foi uma surpresa ver que as onças demoravam tanto para voltar depois da passagem dos cães”, afirma.

Preservação depende também do controle de cães em áreas naturais

O estudo reforça um ponto crucial para a conservação: a presença de cães em áreas naturais não é apenas um incômodo, mas um fator que altera o comportamento de espécies nativas, inclusive de grandes predadores. Além de transmitir doenças, competir por alimento e predar animais silvestres, cães podem modificar a dinâmica ecológica de ambientes protegidos.

Ao revelar que até a onça-parda — símbolo de força e resiliência — evita locais frequentados por cães, a pesquisa destaca a necessidade de políticas públicas e ações de manejo que controlem a circulação desses animais em áreas de conservação. A preservação da fauna depende, cada vez mais, de medidas que vão além da proteção da vegetação e incluem o controle de impactos trazidos pela presença humana e seus animais domésticos.

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