SÉCULONEWS

Preservando o futuro | Informando o presente

Assinar Newsletter
Meio Ambiente

A Amazônia viva: como o turismo comunitário transforma a floresta em renda e preservação

Da Amazônia mato-grossense às terras indígenas no Acre, o turismo liderado por quem vive no território é alternativa viável à exploração predatória

6 de setembro de 2026

A Amazônia viva: como o turismo comunitário transforma a floresta em renda e preservação

A diferença entre visitar a Amazônia e ser, de fato, recebido por ela tem se tornado cada vez mais evidente. Enquanto muitos viajantes ainda enxergam o bioma como um cenário intocado a ser observado à distância, cresce o número de pessoas que descobrem outra Amazônia — aquela que se revela no encontro com seus guardiões ancestrais e nas comunidades que mantêm viva a sociobiodiversidade da região.

Esse movimento acompanha a expansão do turismo de base comunitária (TBC) nos nove estados amazônicos — Acre, Amapá, Amazonas, Maranhão, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins. Nesse modelo, o visitante deixa de ser espectador e passa a integrar uma relação mais justa e humanizada: o guia é o jovem morador, a comida vem da roça local e os saberes tradicionais se transformam em hospitalidade.

“A grande força da Amazônia está na sua imensidão e diversidade. Quando descentralizamos o fluxo turístico e o levamos para todos os estados e comunidades do interior, ampliamos oportunidades de renda e permitimos que o visitante vivencie a verdadeira diversidade socioambiental da floresta”, afirma Luiz Del Vigna, diretor executivo da Associação Brasileira das Empresas de Ecoturismo e Turismo de Aventura (Abeta).

Turismo que conserva e gera renda O avanço do TBC está diretamente ligado à bioeconomia amazônica, ao oferecer alternativas de geração de renda sem derrubar floresta, esgotar estoques pesqueiros ou degradar o solo. Na Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) do Rio Negro, no Amazonas, um estudo publicado em 2025 na revista Delos mostrou que, na comunidade de Tumbira, o turismo envolve 55% dos moradores de forma direta e alcança 75% da população quando consideradas atividades indiretas, como agricultura, navegação e artesanato.

Nesses territórios, o turismo comunitário consolida-se como ferramenta de conservação ambiental e desenvolvimento econômico. Saberes ancestrais, modos de vida, rotas de travessia e sabores locais são transformados em experiências operadas pelos próprios moradores. O visitante deixa de observar a floresta como cenário e passa a remunerar quem protege a sociobiodiversidade.

Exemplos se multiplicam em toda a região. No norte de Mato Grosso, a Rota Agroecológica Guadalupe, organizada pela Raizeira Ecoturismo, reúne cinco iniciativas de TBC em Alta Floresta, integrando agricultura familiar, produção orgânica e conhecimentos tradicionais.

Em Roraima, a Roraima Adventures oferece vivências na Raposa Serra do Sol, conduzidas pelo manejo territorial indígena. No Pará, a Amazônia Aventura conecta viajantes às comunidades ribeirinhas do entorno de Belém. No Acre, a Vivalá promove imersões junto ao povo Shanenawa.

Avanços regulatórios e desafios A consolidação do setor também aparece em marcos institucionais. Em 2025, Funai e ICMBio estabeleceram diretrizes para visitação em áreas de sobreposição entre Terras Indígenas e Unidades de Conservação, garantindo protagonismo dos povos originários e regulamentando o etnoturismo.

Publicidade

Publicidade

No âmbito federal, o Plano Nacional de Turismo 2024–2027 e o Programa de Apoio ao Desenvolvimento de Produtos (2026) passaram a priorizar a estruturação do TBC, com investimentos em infraestrutura e resiliência climática.

Apesar dos avanços, ainda há gargalos: acesso a crédito, capacitação técnica, conectividade e logística sustentável são apontados como pontos críticos para que o setor avance.

“Não basta colocar a Amazônia no mapa das agências de viagens; é preciso garantir que o morador local seja o principal beneficiado”, afirma Del Vigna. “Preservar a Amazônia precisa ser economicamente viável e próspero para quem vive e protege o território.”

Cinco experiências para conhecer a Amazônia socioambiental Raizeira Ecoturismo (Mato Grosso) — Rota Agroecológica Guadalupe e observação de aves em RPPN.

Juju Tour (Amazonas) — Imersões comunitárias em Novo Airão, com foco em cultura e natureza.

Roraima Adventures (Roraima) — Expedições e vivências indígenas na Raposa Serra do Sol.

Amazônia Aventura (Pará) — Ecoturismo e experiências com ribeirinhos no entorno de Belém.

Vivalá (Acre) — Imersões culturais junto ao povo Shanenawa.

Leia também