Brasil que floresce além do agronegócio tradicional
Em meio aos campos dominados pelas grandes safras, culturas menores e especializadas, como a produção de flores, movimentam negócios, sustentam famílias e revelam a diversidade do agro no país
14 de setembro de 2026

O agronegócio brasileiro costuma ser associado a cifras bilionárias e extensas áreas de soja, milho, cana-de-açúcar, café e algodão. Essas culturas dominam o território e sustentam parte expressiva da economia nacional. Mas, longe dos holofotes das grandes commodities, cresce um outro campo — menor em escala, diverso em propostas e decisivo para nichos como gastronomia, jardinagem e decoração.
É nesse universo que pequenos e médios produtores têm encontrado espaço para inovar e prosperar. Em Teresópolis (RJ), por exemplo, a agricultora Maria Lúcia Nogueira Lourenço, da Morro Agudo Hortaliças Especiais, transformou a rotina da propriedade ao apostar em flores comestíveis. Há 30 anos na lavoura, ela e o marido começaram com hortaliças tradicionais. A guinada veio há cinco anos, quando decidiram investir em espécies como amor-perfeito, capuchinha, tagete, cravina e rosas.
“No início, colhíamos 20 potinhos e vendíamos 10. Não havia mercado. Mesmo assim, não desistimos”, lembra. A persistência rendeu frutos: hoje, Maria Lúcia é referência no Rio de Janeiro e atende chefs e restaurantes que buscam cores, texturas e aromas exclusivos para a alta gastronomia. “Trabalhamos com tudo que é diferente, buscando sempre inovar”, resume.
No Paraná, o engenheiro agrônomo William R. Hannemann, da Bela Flor Plantas, trilhou caminho semelhante ao apostar em plantas ornamentais. O negócio nasceu de uma necessidade familiar e evoluiu até se tornar fornecedor de prefeituras e grandes garden centers. “A maior dificuldade foi o conhecimento — entender cada espécie, as pragas, o manejo. Hoje, temos duas unidades: uma para mudas e outra para vasos e cuias”, explica. A empresa já soma duas décadas de atuação.
Também no Oeste paranaense, em Maripá, o produtor Elemar Stibbe viu nas orquídeas uma oportunidade de desenvolvimento local. O cultivo começou de forma improvisada, no quintal, após um projeto municipal incentivar a ornamentação de ruas com a planta. A beleza das flores atraiu visitantes e despertou demanda. “As pessoas vinham à cidade e queriam comprar mudas, mas não havia nenhum produtor”, conta. Hoje, o Orquidário Maripá & Cia ocupa 27 mil metros quadrados, trabalha com espécies nativas e exóticas e comercializa mudas clonadas para todo o país pela internet.
No interior de São Paulo, uma tradição pouco conhecida resiste há mais de meio século. Em Guatapará, o produtor Masaharu Takagi mantém o cultivo da raiz-de-lótus (renkon), atividade iniciada antes da década de 1970 e passada entre gerações. Após assumir a produção em 2012, ele decidiu preservar o legado. “Não posso deixar isso acabar. Esse cultivo faz parte da identidade da cidade”, afirma.

Plantada em áreas alagadas, a raiz exige manejo totalmente manual. Nada se perde: talos viram fibras semelhantes ao fio de seda; folhas são usadas para chá medicinal; sementes são comestíveis; e a raiz é o principal produto. A flor, apesar da beleza, tem baixa durabilidade comercial. A produção anual ocupa cerca de um hectare e abastece principalmente a comunidade asiática no estado, com 50 a 60 caixas por safra.
Cooperativismo como motor de expansão
Dados do Sicredi mostram que, apenas nos estados do Paraná, São Paulo e Rio de Janeiro, atividades ligadas ao cultivo de flores e plantas movimentaram mais de R$ 16,8 milhões na safra 2025/2026. Para a instituição, esses produtores representam a força da diversidade no campo.
“Cada investimento nessas atividades fortalece cadeias produtivas locais, gera renda e amplia o desenvolvimento regional. É o tipo de crescimento que o cooperativismo acredita e apoia”, afirma Gilson Farias, gerente de Desenvolvimento de Negócios da Central Sicredi PR/SP/RJ.
O apoio financeiro tem sido decisivo para que pequenos produtores consigam inovar e se manter competitivos. Em Teresópolis, a gerente de Negócios Agro Thaísa Carla dos Reis Aguiar acompanha de perto a trajetória de Maria Lúcia. “Apoiamos o pequeno produtor com orientação, crédito consciente e soluções personalizadas. Isso permite crescer de forma sustentável e com propósito”, explica.
Entre as mais de 300 soluções da instituição, há linhas específicas para o campo — como crédito de custeio, Proagro com seguro e financiamentos via BNDES para estufas, equipamentos e expansão da produção. Foi com esse suporte que Maria Lúcia automatizou irrigação e adubação, investiu em cultivo protegido e transformou o negócio familiar em referência estadual.
“A Maria Lúcia é um grande exemplo. Ela confiou no Sicredi, e hoje tudo é resolvido com visitas e mensagens, sem precisar ir à agência. Esse relacionamento próximo faz a diferença”, destaca Thaísa.
Um país que floresce em múltiplas cores
Das flores comestíveis às orquídeas, das plantas ornamentais à raiz-de-lótus, as histórias de Maria Lúcia, William, Elemar e Masaharu revelam um Brasil rural diverso, resiliente e cheio de possibilidades. Em um setor dominado por gigantes, são as pequenas culturas que mostram que inovação, cuidado e apoio adequado podem gerar resultados expressivos — e colorir o futuro da agricultura nacional com novos caminhos.
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