Brasil gera mais de 100 milhões de toneladas de entulho por ano
Resíduos de obras, reformas e demolições podem ser reaproveitados em vez de seguir para aterros. Experiência no Litoral Norte de SP mostra como funciona esse processo
4 de novembro de 2026

Por trás de cada obra concluída existe um desafio pouco visível: o destino dos resíduos gerados durante construções, reformas e demolições. Tijolos quebrados, restos de concreto, madeira, terra e outros materiais que costumam ser tratados como simples entulho representam um volume que ultrapassa 100 milhões de toneladas por ano no Brasil.
O dado consta no Panorama dos Resíduos Sólidos no Brasil 2025, elaborado pela Associação Brasileira de Resíduos e Meio Ambiente (Abrema), e reúne resíduos provenientes de pequenas reformas, grandes empreendimentos imobiliários, demolições e obras públicas.
Quando descartados irregularmente em terrenos baldios, vias públicas ou áreas de preservação ambiental, esses materiais podem causar impactos ambientais significativos e levar à aplicação de multas que podem alcançar R$ 50 milhões, além de outras sanções previstas na legislação ambiental.
A gestão desses resíduos é regulamentada pela Resolução nº 307 do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama), que estabelece responsabilidades aos geradores e define critérios para reutilização, reciclagem e destinação final adequada.
Do trabalho acadêmico à criação de uma usina de reciclagem
No Litoral Norte de São Paulo, uma iniciativa criada a partir de um Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) demonstra como parte desse problema pode ser transformada em oportunidade.
A usina de reciclagem do IDEAL Grupo começou a operar em 2016 após um projeto desenvolvido pelo engenheiro ambiental Aurélio Fernandes Sales de Castro, atual gerente de Qualidade, Segurança, Meio Ambiente e Saúde (QSMS) da empresa.
Segundo ele, a proposta surgiu em um momento de grande crescimento das obras na região, impulsionadas por empreendimentos como a implantação da Unidade de Tratamento de Gás de Caraguatatuba e a duplicação da Rodovia dos Tamoios.
“Não existia nenhuma unidade de reciclagem aqui no Litoral Norte. A ideia começou com o TCC, foi apresentada à direção da empresa e evoluiu até a criação da usina, após todo o processo de licenciamento ambiental”, afirma.
Atualmente, a unidade processa cerca de 2.962 toneladas de resíduos por mês.
Controle começa na chegada do material
Antes de qualquer processo de reciclagem, o material recebido passa por uma série de verificações.
As cargas chegam acompanhadas do Manifesto de Transporte de Resíduos (MTR), documento que permite rastrear a origem e a destinação do material. Os caminhões são pesados e o conteúdo transportado é inspecionado. Caso sejam identificados resíduos não compatíveis com a licença ambiental da operação, como materiais contaminados, amianto ou lixo urbano misturado ao entulho, a carga é recusada.
De acordo com Aurélio, esse controle é fundamental porque, ao aceitar o resíduo, a empresa assume a responsabilidade pela sua destinação final.
Entulho pode voltar à cadeia produtiva
Uma das etapas mais importantes do processo é a reciclagem dos resíduos classificados como Classe A pela Resolução Conama 307, categoria que inclui concreto, tijolos, blocos, argamassa e solos de terraplanagem.
Após serem recebidos, esses materiais passam por britagem e peneiramento. O resultado são agregados reciclados, como brita e rachão, utilizados em aplicações compatíveis com suas características técnicas.
Na prática, um bloco de concreto descartado pode retornar ao mercado como brita reciclada para uso em aterros, pátios e obras que não demandam materiais estruturais.
Segundo o engenheiro, esses produtos são comercializados por cerca de 30% do valor dos agregados minerais convencionais.
Apesar da vantagem econômica, ele ressalta que o material reciclado possui limitações técnicas e não substitui integralmente a matéria-prima tradicional em todas as aplicações.
Madeira e poda têm destino diferente
Nem todo o resíduo recebido passa pelo mesmo processo.
Madeiras e resíduos de poda representam atualmente o maior volume recebido pela unidade e seguem uma rota específica de reaproveitamento.
As podas chegam com alto teor de umidade e precisam permanecer armazenadas por dois a três meses para secagem natural. Somente depois passam pela trituração.
Parte do material orgânico misturado à terra pode ser transformada em terra vegetal utilizada em áreas verdes e jardinagem. Já a madeira triturada é convertida em cavacos e pó de serra destinados a empresas que utilizam biomassa como fonte energética.
Materiais contaminados por óleo ou outras substâncias, no entanto, não podem seguir esse mesmo processo.
A separação correta faz a diferença
Um dos principais desafios enfrentados pela operação é a chegada de resíduos misturados inadequadamente.
Sacolas plásticas, vidros, metais e outros materiais frequentemente são encontrados no meio do entulho e precisam ser retirados manualmente durante a triagem.
Enquanto vidros e metais podem ser encaminhados para reciclagem, parte dos plásticos encontrados não apresenta condições adequadas de reaproveitamento devido à contaminação por terra, chuva e outros resíduos.
Segundo Aurélio, aproximadamente uma carreta com capacidade de 32 metros cúbicos é preenchida a cada dez ou quinze dias com rejeitos plásticos retirados das cargas recebidas e encaminhada para aterro sanitário.
“O resíduo que poderia ser reciclado acaba se tornando rejeito por causa da mistura inadequada. Isso aumenta custos, exige mais esforço de triagem e amplia os impactos ambientais”, explica.
Terra escavada também pode ser reaproveitada
A terra retirada em escavações para fundações, valas e outras intervenções também pode ganhar uma nova finalidade.
Quando não apresenta contaminação e atende aos requisitos técnicos necessários, o material pode ser utilizado em aterros para nivelamento de terrenos e preparação de áreas destinadas a novas construções.
A reutilização reduz a necessidade de extração de solo em outras regiões e evita que um material potencialmente útil seja tratado como rejeito.
Usina de reciclagem não é lixão
De acordo com os responsáveis pela operação, um dos equívocos mais comuns é confundir usinas de reciclagem com lixões.
A diferença está no controle e no destino dado ao material.
Enquanto lixões recebem resíduos de forma indiscriminada e sem tratamento adequado, as usinas operam dentro de critérios definidos em licenças ambientais, registrando entrada, processamento, armazenamento temporário e destinação final dos resíduos.
No caso da unidade do IDEAL Grupo, o licenciamento ambiental foi renovado até 2030.
Além disso, a empresa mantém inventários anuais que registram quanto material entrou, quanto foi processado, quanto permaneceu armazenado e qual foi sua destinação.
Conscientização é parte do processo
Além da reciclagem, a empresa realiza atividades educativas com moradores e estudantes da região, incluindo visitas guiadas à usina e oficinas de reaproveitamento de madeira.
Para Aurélio, o maior desafio continua sendo a mudança de comportamento em relação aos resíduos gerados pelas obras.
“Durante muito tempo, aquilo que sobrava de uma construção foi visto apenas como algo sem valor. Precisamos compreender que esses materiais continuam sendo responsabilidade de quem os produz e que muitos deles podem voltar ao ciclo produtivo”, afirma.
Segundo o engenheiro, a reciclagem começa antes mesmo da chegada dos resíduos à usina, passando pela separação correta dos materiais e pela escolha de locais autorizados para a destinação.
“Não basta termos tecnologia para reciclar. É preciso consciência. Quando descartamos corretamente os resíduos, reduzimos desperdícios, preservamos recursos naturais e diminuímos os impactos ambientais. A reciclagem começa na atitude de cada um”, conclui.
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