UNICEF estima custo de US$ 173 milhões para impactos do El Niño; especialistas alertam para riscos às comunidades quilombolas no Brasil
Diante das mais de 7,6 mil comunidades quilombolas catalogadas no país, segundo o IBGE, a Presidente do Instituto Reinventando Futuros, Liu Berman, destaca que saberes ligados ao artesanato, à cerâmica, à história, ao turismo e aos conhecimentos locais, podem ser perdidos devido aos impactos socioeconômicos provocados pelo El Niño
23 de setembro de 2026

O avanço do El Niño 2026, apontado por meteorologistas como um dos mais severos desde 1950, acende um alerta global sobre seus efeitos climáticos e sociais. Segundo o UNICEF, o fenômeno deve exigir US$ 173 milhões em ações emergenciais nas províncias e países prioritários, incluindo regiões da África Oriental e Austral. No Brasil, especialistas destacam que os impactos podem atingir de forma intensa comunidades tradicionais — entre elas, as 7,6 mil comunidades quilombolas catalogadas pelo IBGE.
Fenômeno climático mais severo em décadas
Dados do Instituto Nacional de Meteorologia de Moçambique (INAM) indicam que o atual El Niño pode ser um dos mais fortes registrados desde meados do século XX. O aquecimento das águas do Pacífico, além de provocar secas, enchentes e eventos extremos, tende a afetar indicadores sociais essenciais, como saúde, educação e segurança alimentar.
Em Moçambique, o Ministério da Educação e Cultura estima que 1,5 milhão de estudantes podem ter sua rotina escolar comprometida. Há risco de danos à infraestrutura, aumento da desnutrição, disseminação de doenças, escassez de água e deslocamentos populacionais.
Comunidades tradicionais brasileiras sob risco
No Brasil, ambientalistas e pesquisadores alertam para os efeitos do fenômeno sobre quilombolas, ribeirinhos, povos indígenas e outras populações historicamente invisibilizadas. Para Liu Berman, presidente do Instituto Reinventando Futuros, o El Niño agrava vulnerabilidades já existentes em territórios afastados dos centros urbanos.
“Diante de um fenômeno dessa dimensão, não basta mapear carências. É preciso olhar para as vocações e os ativos que cada comunidade já possui”, afirma. Segundo ela, saberes ligados ao artesanato, cerâmica, história, turismo e conhecimentos locais correm risco de desaparecer caso não haja políticas públicas voltadas à proteção desses territórios.

Cultura como base de resiliência
Berman destaca que tradições e práticas ancestrais são fundamentais para a sustentabilidade econômica e cultural das comunidades. No Quilombo do Muquém, em Alagoas, por exemplo, o artesanato e a cerâmica são pilares da economia local e da preservação da identidade quilombola.
“Quando esses saberes são ameaçados, perde-se a capacidade de sustentação da comunidade. Fortalecer vocações ancestrais cria a base necessária para enfrentar impactos climáticos e reconstruir o futuro com autonomia”, afirma.
Secas, enchentes e urgência de políticas públicas
O chamado Super El Niño já provoca efeitos no Brasil: fortes chuvas em São Paulo e Paraná, seca severa em Roraima e instabilidade climática em diferentes regiões. Para Liu, é urgente colocar comunidades tradicionais no centro das discussões climáticas.
Apesar da ampla presença quilombola no país, ela afirma que ainda faltam políticas específicas para mitigar impactos do fenômeno. Após visita ao Quilombo do Muquém, reforça que o território deve ser visto como parte da solução — e não como problema.
Território como estratégia de proteção
Segundo a especialista, o desenvolvimento territorial é chave para criar resiliência climática. Investir em cooperativas de cerâmica, manejo sustentável da pesca ribeirinha ou rotas de ecoturismo, diz ela, não é apenas preservar cultura: é garantir autonomia financeira e infraestrutura para enfrentar emergências climáticas sem depender exclusivamente de socorro tardio.
“O território é protagonista do próprio futuro. Reconhecer o que já existe e conectar o que está disperso é o caminho para atravessar o El Niño e sair fortalecido”, conclui.


