Municípios brasileiros correm contra o tempo para se adaptar às mudanças climáticas
Pesquisador alerta para a urgência de mapear e reduzir vulnerabilidades antes da chegada de novos desastres. Atualmente, apenas 15% das cidades brasileiras têm plano de adaptação
29 de setembro de 2026

Com apenas 15% das cidades brasileiras contando hoje com um Plano Municipal de Adaptação Climática, especialistas alertam: o país está vulnerável diante da escalada de eventos extremos. Em 2025, o Atlas Digital de Desastres registrou 87 mortes, 410 mil desabrigados e 13,3 milhões de pessoas afetadas por desastres naturais e humanos — números que reforçam a urgência de agir antes que novas tragédias ocorram.
Os impactos econômicos também foram severos: R$ 34,4 bilhões em prejuízos aos cofres públicos e R$ 4,9 bilhões em danos diretos ao setor privado. Apesar disso, a maioria dos municípios segue sem instrumentos básicos de planejamento climático.
Lactec: ciência como aliada na gestão pública
Nesse cenário, o Lactec — um dos poucos Institutos de Ciência e Tecnologia do país com área dedicada exclusivamente ao meio ambiente — tem se consolidado como parceiro estratégico de governos e empresas. A instituição já conduziu a caracterização ambiental do desastre do Rio Doce e liderou estudos de extremos climáticos para usinas do Sistema Interligado Nacional, em projetos financiados pela Norte Energia S.A. e pelo Programa de P&D da ANEEL.
“Prevenir custa menos do que reconstruir”
Para o pesquisador João Paulo Saboia, mestre em variabilidade climática, a preparação municipal é decisiva:
“É urgente desenvolver soluções e implementar ações para responder aos eventos atuais e futuros. Os investimentos em prevenção são substancialmente menores do que os custos de remediação e reconstrução”, afirma.
Saboia explica que adaptação climática envolve ajustes estruturais e operacionais para reduzir vulnerabilidades e aproveitar oportunidades trazidas pelas mudanças do clima. Quando ameaça, exposição e vulnerabilidade se combinam sem mitigação, o risco se transforma em desastre.
Como nasce um Plano Municipal de Adaptação Climática
Segundo diretrizes do Ministério do Meio Ambiente, o plano deve seguir oito etapas, incluindo governança local, análise de risco, definição de medidas e monitoramento contínuo. O processo leva, em média, 10 meses, tempo necessário para envolver a comunidade e estruturar decisões baseadas em ciência.
Além de proteger vidas, um plano bem elaborado abre portas para financiamentos internacionais voltados à resiliência e restauração ambiental.
Adaptação x Contingência: diferenças essenciais
Levantamento da Transparência Internacional mostra que, entre 233 municípios avaliados, 76,8% não possuem plano de adaptação nem metas climáticas no Plano Plurianual. Muitos confundem adaptação com contingência.
Enquanto o Plano de Adaptação é estratégico e de longo prazo, o PLANCON é operacional — define rotas de evacuação, protocolos de emergência e abrigos quando o desastre já está em curso.
Riscos crescentes e a meta para 2035
Mais de 80% dos municípios brasileiros têm vulnerabilidade média, alta ou muito alta a desastres geo-hidrológicos, como deslizamentos, enxurradas, inundações e secas. O Plano Clima – Adaptação, lançado em 2026, estabelece que 35% das cidades devem possuir planos de adaptação até 2035.
Para Saboia, o desafio é enorme:
“Será preciso mais que dobrar o número de municípios preparados em uma década. Isso exige políticas públicas estruturadas, financiamento adequado e engajamento institucional.”
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