Geopolítica e novas regras comerciais pressionam acesso do agro brasileiro aos mercados globais
Tema esteve em debate no primeiro dia do GAFFFF 2026, falando sobre os impactos das mudanças regulatórias, novas exigências internacionais para o setor e a capacidade do país de fornecer segurança alimentar ao mundo foram alguns dos pontos abordados
1 de outubro de 2026

As mudanças no cenário geopolítico e nas regras do comércio internacional estão redefinindo o acesso do agronegócio brasileiro aos principais mercados globais. Com mais de 50% das exportações concentradas em China, União Europeia e Estados Unidos, o setor enfrenta um ambiente marcado por novas barreiras, exigências regulatórias e disputas comerciais que podem alterar fluxos de alimentos e insumos.
O tema foi destaque no painel “Geopolítica e Comércio Agro: A Nova Regulação Global dos Mercados”, realizado no primeiro dia do GAFFFF 2026, no Nubank Parque, em São Paulo. O debate reuniu Ricardo Santin, presidente da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), e Manoel Mário de Souza Barros, presidente da Academia Latino-Americana do Agro (Alagro).

Regras mais rígidas e custos maiores
Barros alertou que sanções econômicas, restrições comerciais e disputas geopolíticas já provocam mudanças na circulação global de alimentos. Segundo ele, sistemas de certificação e rastreabilidade — embora essenciais para garantir segurança ao consumidor — podem elevar custos e dificultar o acesso de produtores a mercados estratégicos.
“Essas normas precisam considerar não apenas seus objetivos, mas também os impactos sobre diferentes países. A regulação global está se tornando determinante para definir quem poderá produzir e competir”, afirmou.
Para o presidente da Alagro, o Brasil precisa reforçar sua capacidade de atender padrões de segurança, transparência e sustentabilidade, além de investir em tecnologia, pesquisa agropecuária e inovação para manter competitividade.
Multilateralismo em transformação
Ricardo Santin destacou que o mundo vive uma transição geopolítica que não deve retornar ao antigo modelo de multilateralismo. Para ele, o comércio internacional passa a ser guiado por acordos regionais, novas alianças e disputas estratégicas.
“A comida tornou-se uma arma geopolítica. O Brasil demonstrou resiliência ao evitar desabastecimento e inflação excessiva de alimentos. Essa capacidade logística e produtiva precisa ser usada de forma inteligente na diplomacia”, afirmou.
Santin também ressaltou que, apesar da força do agro brasileiro, muitos países veem o Brasil com receio — o que exige uma postura de parceria, não de ameaça.
Sanidade e sustentabilidade como ativos estratégicos
Os conflitos internacionais, como a guerra na Ucrânia, têm afetado rotas logísticas e ampliado incertezas. Nesse contexto, Santin reforçou que a sanidade sanitária dos alimentos brasileiros é um diferencial crucial.
“O mundo tem 600 milhões de pessoas em situação de fome, e esse número tende a crescer até 2050. O Brasil tem responsabilidade e capacidade para contribuir com a segurança alimentar global.”
Ele alertou, porém, para o risco de barreiras comerciais motivadas por questões ideológicas ou exigências desproporcionais, que podem restringir o fluxo de alimentos essenciais.
GAFFFF 2026 reúne debates estratégicos
Organizado pela DATAGRO, o GAFFFF 2026 reúne conteúdo técnico, negócios, gastronomia e entretenimento, aproximando o agronegócio da população urbana. A edição deste ano conta com 230 empresas apoiadoras, 330 palestrantes de mais de 20 países, espaço para esportes equestres, rodeio, além da Arena Fogo, com restaurantes e produtores artesanais. Shows de Edson & Hudson, Rionegro & Solimões e Fiduma & Jeca integram a programação.
Uma das novidades será o Consenso do Agronegócio, documento pós-evento que reunirá as principais conclusões dos debates.


